Violência sexual fere o coração
Violência sexual aumenta risco cardiovascular em 74% nas mulheres. Estudo brasileiro revela ligação com infarto e arritmias. Entenda os impactos.

A violência sexual não deixa apenas marcas emocionais. Um estudo brasileiro revela um alerta grave para o coração. Meninas e mulheres vítimas desse crime podem desenvolver problemas cardiovasculares com muito mais frequência. Especificamente, a chance aumenta em 74%. A revista Cadernos de Saúde Pública publicou a pesquisa. Os autores usaram dados oficiais do Brasil. Portanto, a conclusão tem base sólida e nacional.
Infarto e arritmias em destaque
A pesquisa também analisou doenças de forma individualizada. Mulheres que sofreram violência sexual apresentaram maiores níveis de infarto do miocárdio. Além disso, tiveram mais arritmias cardíacas. A comparação ocorreu com mulheres que não sofreram a violência. Contudo, nos casos de angina e insuficiência cardíaca, não houve diferenças significativas. Desse modo, o impacto não atinge todos os problemas do coração da mesma maneira.
Metodologia rigorosa
O pesquisador Eduardo Paixão explica as conclusões do estudo. Ele integra o programa de pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Ceará. A equipe aplicou ferramentas estatísticas aos dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS). O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou essa pesquisa em 2019. A PNS é o principal levantamento oficial sobre a saúde da população brasileira. Ela realizou mais de 70 mil entrevistas. Essas entrevistas representam todo o país. Entre vários assuntos, a PNS investigou a ocorrência de violência sexual e de doenças cardíacas. Esse formato permitiu o cruzamento das duas variáveis.
Controle de interferências
Muitas questões podem influenciar o aparecimento de doenças cardiovasculares. Por exemplo, idade, cor da pele, orientação sexual, escolaridade e região de habitação. A equipe de pesquisa usou ferramentas estatísticas para bloquear a interferência desses fatores. Assim, eles obtiveram certeza de que o aumento observado veio exclusivamente da violência sexual sofrida. Portanto, a relação é direta e não fruto de outros elementos.
Impactos além da mente
Eduardo Paixão faz uma observação importante. Na maioria das vezes, as pessoas pensam apenas na saúde mental. Elas investigam somente os efeitos psicológicos da violência sexual. Porém, o trauma pode repercutir em outras áreas do corpo. “A gente sempre pensa em explicações biológicas para as doenças, mas a saúde humana perpassa por muitas interações sociais“, explica o pesquisador. Estudos em outros países já mostravam uma associação muito forte. Especialmente quando a violência ocorre na infância e adolescência. Às vezes, as repercussões duram a vida inteira.
Mecanismos biológicos e comportamentais
A hipótese do grupo envolve uma combinação de fatores. Inicialmente (evitando “primeiramente”, uso “de início” ou “a começar”), a violência sexual desencadeia quadros de ansiedade e depressão. Esses problemas são comuns em vítimas e têm relação com males cardíacos. Além disso, o estresse causa efeitos fisiológicos diretos. Ele aumenta a inflamação do organismo. Essa inflamação ativa toxinas que aceleram a doença cardiovascular. Experiências traumáticas também alteram a pressão arterial e a frequência cardíaca. Ademais, vítimas de violência podem desenvolver atos danosos à saúde. Por exemplo, tabagismo, alcoolismo, uso de entorpecentes, alimentação inadequada e sedentarismo. Todos esses comportamentos elevam os riscos cardiovasculares.
Subnotificação e saúde pública
O pesquisador ressalta que a violência sexual é um problema de saúde pública no Brasil. Segundo a PNS, 8,61% das mulheres relataram ter sofrido ao menos uma violência do tipo ao longo da vida. Entre os homens, o percentual cai para 2,1%. Contudo, esse tipo de crime ainda sofre forte subnotificação. Nem todas as pessoas reconhecem o que sofreram. Outras não se sentem confortáveis para admitir a experiência. Essa é a principal razão para a pesquisa não ter identificado aumento de doenças cardiovasculares também em homens vítimas.
Benefício da descoberta
Para Paixão, o grande benefício da pesquisa é apontar um fator de atenção. Profissionais que trabalham com vítimas de violência sexual precisam considerar os riscos cardíacos. Da mesma forma, médicos que atendem doenças cardiovasculares devem investigar histórico de violência. As doenças do coração têm a maior carga global. Elas geram muitas internações e gastos com procedimentos. “Talvez, se a gente conseguir intervir em fatores de vida modificáveis, a gente consiga diminuir essa incidência“, conclui o pesquisador.
Fonte: AGÊNCIA BRASIL
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